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Artigos Técnicos
Produção de leite no Brasil e participação da genética Girolando com ênfase em reprodução

Data da Publicação: 02/12/2010

Tatiane A. Drummond Tetzner Nanzer 1



1. INTRODUÇÃO

1.1 – Cadeia Produtiva

O agronegócio do leite desempenha um papel importantíssimo na sociedade mundial e de relevância no setor econômico de suprimento de alimentos, bem como na geração de empregos permanentes e como fonte de renda. 

A cadeia produtiva do leite no Brasil vem enfrentando alterações significativas nos últimos anos. Assim, a profissionalização passa a ser vital no sistema de produção, bem como a eficiência da empresa rural. Os avanços tecnológicos na bovinocultura leiteira têm recebido crescente atenção por parte dos vários segmentos do setor lácteo.

O produto final – o leite – é um alimento único pelo seu valor nutritivo e pela sua composição, um constituinte essencial da dieta dos recém-nascidos, e também indicado em todas as idades. Por isso, é extremamente importante apresentar-se com qualidade. 


Tabela 1. Demanda de produção de leite no Brasil
Faixas de idade
Recomendação litros/ano População 2007
Recomendação litros/ano População 2007
Demanda (milhões litros/ano)
Crianças (até 10 anos)
146
32.324.081
4.719
Adolescentes (10 a 19 anos)
256
36.318.893
9.298
Adultos (20 a 69 anos)
219
107.267.323
23.492
Idosos (maiores de 70 anos)
219
8.076.994
1.769
T O T A L
 
183.987.291
39.277 
Fonte: Ministério da Saúde e IBGE 

O consumo per capita de leite no Brasil é de aproximadamente 130 litros por ano. Está bem abaixo da quantidade recomendada para a primeira faixa de idade estabelecida, a qual é destinada às crianças.

A demanda interna tem crescido, porém lentamente. O consumo per capita encontra-se relativamente estagnado por muitos anos e tem sofrido concorrência de vários outros produtos. Além da distribuição de renda, a demanda de lácteos necessitaria de ser acompanhada por campanhas de informação dos aspectos nutricionais do leite, e marketing. 

O consumo de leite e seus derivados, como queijos, bebidas fermentadas e iogurtes, está associado a uma dieta de qualidade no geral e adequada na ingestão de muitos nutrientes, dentre eles cálcio, potássio, magnésio, zinco, ferro, riboflavina, vitamina A e vitamina D.

O consumo de lácteos deveria ser estimulado de forma mais eficiente, pois somente assim a população teria acesso a informações e daria maior importância à presença do leite e seus derivados na dieta diária.

1.2 – Panoramas mundial e local

O continente americano é o segundo maior produtor de leite do mundo (160.588 mil toneladas, em 2007), perdendo para a Europa (207.821 mil toneladas), e seguido pela Ásia (140.787 mil toneladas), de acordo com a FAO (2008).

A América do Norte é responsável por 57,4% da produção total de leite do continente, seguida pela América do Sul, com 32,98%, e pela América Central e Caribe, com 9,62%.

O Brasil é o 6º produtor mundial de leite fluido, com aproximadamente 25 bilhões de litros, perdendo para Estados Unidos, Índia, China, Federação Russa e Alemanha, em ordem decrescente. Nosso país é responsável por 70% do volume total de leite produzido nos países que compõem o Mercosul. Possui o terceiro rebanho de vacas leiteiras do mundo, cerca de 15 milhões de cabeças, sendo, na sua maioria, da raça Girolando, com seus diversos graus de sangue ou puro sintéticos 5/8.

De acordo com Zoccal (2008), houve evolução significativa na produção de leite no Brasil, nas últimas décadas. Em 1980 a produção foi de 11.162 milhões de litros, com 16.513 vacas ordenhadas e produtividade média de 676 litros/vaca/ano. E em 2008 a produção total foi de 27.083 milhões de litros, com 21.484 vacas ordenhadas e produtividade média de 1.261 litros/vaca.

Esses números representam e comprovam as alterações ocorridas na produção de leite de acordo com a linha do tempo, e os avanços obtidos em produtividade quase dobrando em 28 anos. No entanto, os ganhos obtidos ainda são irrisórios, perto do que pode ser aperfeiçoado no sistema de produção.

A produção brasileira de leite ainda tem muitos aspectos para evoluir. Todos esses dados estatísticos apresentados e suas respectivas interpretações são importantes para nos situarmos na cadeia produtiva e conhecermos as limitações atuais da atividade, para que, dessa forma, possamos atuar de forma enfática nas etapas que podem ser alteradas para proporcionar ganhos, sejam de ordem genética, produtiva e/ou econômica.

Alguns dos aspectos e etapas que podem evoluir estão correlacionados à reprodução, à sanidade do rebanho e à nutrição. A posteriori pode-se avançar em etapas como manejo, qualidade do leite produzido, produtividade animal e por área, e administração da produção. No Brasil existem processos tecnológicos disponíveis para que a produção seja comparável aos padrões internacionais.

Dessa forma, abordaremos, abaixo, um dos processos tecnológicos que podem ser utilizados para maximizar a eficiência reprodutiva de matrizes geneticamente superiores.

2. BIOTECNOLOGIAS REPRODUTIVAS

2.1 Produção in vitro de embriões bovinos 

O primeiro passo para a utilização da biotecnologia reprodutiva de produção in vitro, de embriões bovinos (PIV), é a escolha e seleção de matrizes para exercerem o papel de doadoras de oócitos (gametas femininos). Como qualquer biotécnica reprodutiva, a PIV visa aumentar a eficiência reprodutiva pelo aumento do número de descendentes em determinado espaço de tempo. Não somente uma etapa vital de todo o processo, mas a etapa de escolha de doadoras é a que norteará os ganhos genéticos da progênie ou de seus descendentes. 

Em comparação com as outras biotécnicas reprodutivas, a PIV é, sem dúvida, a biotecnologia que apresenta os melhores resultados. A multiplicação de animais geneticamente superiores é rápida, sendo, assim, possível acelerar o aprimoramento genético do plantel. Além de não interferir ou danificar o sistema reprodutivo das doadoras, através da aspiração folicular guiada pela ultra-sonografia (OPU/PIV), pode-se ainda recuperar o potencial reprodutivo de fêmeas com algumas patologias adquiridas, pode-se utilizar fêmeas pré-púberes, púberes, senis, e, ainda, é passível a utilização de fêmeas até o primeiro trimestre de gestação. Em casos extremos, como óbito de uma fêmea bovina de grande valor genético, pode-se tentar recuperar, nos ovários, os oócitos que potencialmente poderão gerar embriões e, posteriormente, bezerros.

Uma das vantagens da PIV frente à tradicional técnica de Transferência de Embriões (TE) é que na biotécnica de PIV não é necessário o uso de hormônios para promover a superovulação (SOV), pois nesse tratamento tem-se observado alta variabilidade individual das doadoras, levando a inconstantes respostas superestimulatórias ovarianas, limitando os resultados e o uso da TE. Sendo assim, fêmeas que apresentam baixa resposta hormonal podem ser utilizadas na biotécnica de PIV.

2.2 CRITÉRIOS DE SELEÇÃO DE DOADORAS

Critérios de seleção de doadoras devem ser adotados de acordo com os objetivos, quer sejam: produtivo, funcional, pautado em características raciais ou para atender o mercado, mas é importante que sejam definidos a priori.

Na escolha da doadora devem ser levados em consideração diversos fatores; principalmente porque a matriz escolhida para a função de doadora será uma replicadora de genética e deixará muitos descendentes. Os fatores que devem ser analisados são:

  • Genealógico ou pedigree - (Visa analisar a composição de linha alta e baixa dos reprodutores). A avaliação das famílias pelas quais as características foram transmitidas ou herdadas não significa que todas as características fenotípicas dos parentais serão transmitidas à progênie, pois metade é de origem paterna e metade de origem materna. Entretanto, além da questão da herdabilidade de determinada característica, os gametas (espermatozóides e oócitos), durante a etapa meiótica sofrem divisões e, dessa forma, ocorre a segregação independente dos genes, o que pode levar a diferentes recombinações, gerando diversos fenótipos entre os descendentes.
  • Portanto, a análise genealógica indica a possibilidade de características fenotípicas presentes nas gerações futuras, mas a seleção de uma doadora não deve ser unicamente analisada pela genealogia.

  • Fenotípico ou morfológico - (Análise quanto aos padrões exigidos para cada raça, e características de ordem produtiva, funcional e racial). A avaliação visual reúne e abrange vários aspectos, pois a avaliação externa pode estar correlacionada à determinada função interna. No caso de avaliação de estrutura corpórea, perímetro torácico, amplitude peitoral e costado, nos indica o funcionamento e a capacidade de órgãos e sistemas circulatório, respiratório e digestivo. Na avaliação funcional, podem-se analisar os aprumos, ou aparato locomotor, linha dorso-lombar, estrutura óssea, e correlacionar com a função de locomoção e longevidade, ou vida útil da fêmea bovina, e várias outras avaliações, como caracterização racial, diferenciação sexual, pelagem, pigmentação, aspectos reprodutivos dos órgãos externos, etc.
  • Status ou histórico reprodutivo - (Avaliação ginecológica). A avaliação prévia dos ovários pode indicar o potencial da doadora na produção de oócitos. Esta avaliação é realizada através de ultra-sonografia, na qual serão visualizados o número de folículos ovarianos e a presença de possíveis alterações nos ovários que possam influenciar na taxa de recuperação de oócitos. Estas alterações podem ser tumores (raros nos bovinos), hipoplasia/aplasia ovariana, aderências ovarianas e cistos ovarianos, sendo esta última a principal alteração encontrada.
  • Status sanitário e nutricional - (Avaliação através de exames laboratoriais comprobatórios de sanidade e acompanhamento nutricional adequado). Fêmeas que serão introduzidas em um programa de PIV devem estar isentas de enfermidades reprodutivas e infecciosas, e ainda em condições nutricionais condizentes ao processo. Fêmeas com escore de condição corporal aquém do ideal, muito magras, devem entrar em balanço energético positivo e recuperar seu peso. Fêmeas com elevado escore corporal ou obesas devem ter sua dieta alterada, e permanecer somente em sistema a pasto de boa qualidade, suplementadas com sal mineral de origem garantida, pois a mineralização influencia diretamente nas respostas reprodutivas.
  • Testes de Biologia Molecular - (Exames laboratoriais de DNA para identificação de marcadores moleculares). Há a possibilidade de análise através de marcadores moleculares, como um fator complementar, e já disponível comercialmente, para uma série de características e genes de interesse, ligados à produtividade, como marmoreio e maciez da carne, produção de sólidos totais, proteína e gordura no leite, ou ligados à funcionalidade, como longevidade ou vida útil, e vários outros.

  • Se possível, a identificação de homozigose ou heterozigose nas doadoras, para determinadas características também é interessante, pois se pode prever maior ou menor acurácia nos acasalamentos.

    Além da genética, é importante, ainda, que a doadora tenha aspecto saudável e vigoroso e que esteja sob regime nutricional adequado, pois o escore de condição corporal pode influenciar no êxito da recuperação dos gametas, (oócitos). Doadoras obesas dificultam o acesso ao ovário; o acúmulo de tecido adiposo no local atrapalha na recuperação dos oócitos e também na qualidade oocitária. Doadoras com baixo escore de condição corporal podem recrutar menos folículos a cada onda do ciclo estral, o que também interfere na qualidade do oócito.

    São inúmeros os detalhes que proporcionam diferenças que elevam as taxas finais de obtenção de oócitos e embriões, tais como instalações e infra-estrutura. Estas devem ser adequadas e específicas para a execução das práticas do profissional médico veterinário capacitado, de contensão em local apropriado, de manejo racional e, especialmente, de condições nutricionais e sanitárias.

    É importante ainda ressaltar que doadoras irmãs próprias, originadas de gametas diferentes, podem possuir diferente material genético. Quanto às gêmeas idênticas, ou univitelinas, possuem o mesmo material genético, pois têm origem no mesmo gameta feminino e masculino.

    Quando a decisão por uma matriz é pautada em vários fatores aumenta-se a precisão ou possibilidade de acerto.

    A seleção é propriamente a escolha dos progenitores da próxima geração, no intuito de gerar descendentes que os superem nos aspectos produtivos, reprodutivos e funcionais.

    E no caso da utilização de uma biotécnica reprodutiva que tem custos relativamente elevados, devem ser escolhidos os reprodutores e matrizes geneticamente superiores, para a utilização dos espermatozóides e oócitos (gametas).

    2.3 ACASALAMENTOS DIRIGIDOS

    Após a etapa de seleção de doadoras, o passo seguinte é efetuar os possíveis acasalamentos dirigidos ou direcionados, pois caso o número de estruturas viáveis seja interessante, pode-se utilizar na etapa de fecundação in vitro (FIV), sêmen oriundo de diferentes reprodutores.

    Não somente a escolha das doadoras é um passo importante, mas também a escolha ou seleção de touros com quem serão acasaladas, mesmo que in vitro. Essa escolha, também essencial para o êxito da atividade, deve ser pautada na análise das avaliações genéticas e provas zootécnicas (Touros para produção de leite – PTAs – habilidade prevista de transmissão) para diferentes características contidas nos Sumários de Touros Provados, além de avaliação funcional, visual e mensurações, qualidade do sêmen, e também na genealogia e fenótipo. 

    Outra questão que deve ser analisada com relação aos touros ou reprodutores escolhidos para se utilizar na PIV, é a verificação do desempenho in vitro, porque ocorre variação individual e resposta na produção final de embriões PIV. Existem touros com alto potencial nesse tipo de fecundação, e outros com baixa capacidade. Ainda pode ocorrer interação touro-vaca, ou seja, interação negativa ou positiva dos oócitos de determinada doadora, com espermatozóides de um determinado touro resultando em baixa ou alta produção de embriões, respectivamente.

    Todas as informações da doadora serão analisadas para a escolha de um reprodutor, pois no acasalamento corretivo podem-se buscar características ausentes ou presentes, ou que estejam em déficit, e que podem ser melhoradas na geração seguinte. Este é o papel de um acasalamento dirigido – buscar informações e utilizá-las de forma que se tenha alta probabilidade de que os filhos sejam “melhoradores”, ou superiores aos pais.

    No mesmo acasalamento, de determinado touro com determinada doadora, são inúmeras as possibilidades de descendentes, oriundos de gametas diferentes e que carregam material genético diverso, ou seja, diferentes genes. Entretanto, é importante acasalar com responsabilidade para obtenção de fenótipos ideais ou desejáveis.

    Com o advento do sêmen sexado e disponível no mercado é possível a escolha do sexo dos produtos, com alta margem de confiabilidade. Na PIV uma única palheta de sêmen pode ser utilizada para a fecundação de dezenas ou ainda centenas de oócitos, de diferentes doadoras. Ou ainda podem-se fecundar os oócitos de uma mesma doadora com diferentes doses de sêmen de vários touros. Dessa forma, as combinações dos acasalamentos são inúmeras.

    Nos últimos anos, a valorização de fêmeas ocorreu em progressão geométrica, e este fato é passível de compreensão, pelo histórico da utilização comercial das biotécnicas reprodutivas visando a multiplicação de fêmeas geneticamente superiores.

    Embora, para o melhoramento genético pautado em bases sólidas seja necessário o crescimento e evolução dos dois sexos, a metodologia de sexagem dos espermatozóides contribui para o direcionamento da atividade e também para atender os mercados nacional e internacional de embriões.

    Em esquemas corretos de seleção espera-se que o desempenho genético médio de uma geração seja superior ao da geração anterior. A rapidez com que este desempenho superior é colocado em reprodução reflete a relação entre intervalo de gerações e progresso genético anual. Intervalos de gerações mais curtos levam a ganhos genéticos anuais maiores. Nesse sentido, esperando que mais progênies sejam criadas antes de realizar a seleção, o criador pode aumentar a intensidade seletiva e o progresso genético por geração, mas será inevitável o aumento no intervalo de gerações, com consequente redução no ganho genético por unidade de tempo. Assim, gera-se um conflito entre intensidade seletiva e intervalo de gerações, devendo-se encontrar equilíbrio entre ambos; aumentando-se o número de progênies até certo ponto compensatório. O número ótimo de progênies não pode ser estabelecido em termos gerais e cada caso deve ser trabalhado de acordo com suas circunstâncias específicas.

    3. CONCLUSÕES

    É importante ressaltar que todas as etapas do processo devem ser efetuadas por profissionais capacitados, tanto na seleção e acasalamento de doadoras e reprodutores, quanto no momento da aspiração folicular guiada pela ultra-sonografia, nas etapas sucessivas no laboratório de PIV, e finalizando na qualidade nutricional, reprodutiva e sanitária das receptoras, para proporcionar um embrião de qualidade, assim, gerando altas taxas de prenhez, e o sucesso da biotécnica quanto ao melhoramento genético.

    Deve-se salientar que somente a utilização de biotécnicas reprodutivas, não necessariamente gera melhorias genéticas no rebanho, pois representa “uma” das ferramentas, que deve estar aliada a uma série de outras, tais como: acompanhamento no segmento de melhoramento genético, análise fenotípica ou visual, manejo racional e etológico dos bovinos, aspectos sanitários e aspectos nutricionais.

    Além da etapa de reprodução, ainda há muitos outros fatores ou etapas que devem ser consideradas para sucesso na atividade de genética leiteira. A escolha e seleção dos reprodutores são apenas o ponto de partida, o pontapé inicial. Por isso, informar-se corretamente e avaliar cada situação é a melhor opção para atingir o ponto ótimo entre custo e benefício e, assim, a obtenção de uma atividade rentável.


    Médica Veterinária M.Sc., Doutoranda em Reprodução Animal UNESP Jaboticabal SP, Especialista em Julgamento FAZU/ABCZ, Jurada Efetiva ABCZ, ABCGIL e Girolando, Consultora Técnica


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