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Artigos Técnicos
Dieta e manejo de vacas secas

Data da Publicação: 02/12/2010

Káthya Padovani
Assessora Técnica da Connan - Companhia de Nutrição Animal

Com a evolução crescente do potencial genético de animais para alta produção de leite, estes apresentam maior demanda nutricional, além da necessidade da aplicação de estratégias específicas de manejo. Para garantir o melhor desempenho dos animais, é preciso olhar a produtividade deles como resultado direto das condições nutricionais, de sanidade e ambiente em que são expostos, durante todo o ciclo produtivo, de forma a expressar seu potencial genético. Assim, todos os recursos disponíveis devem ser otimizados de acordo com as características de cada fase de lactação, para maior eficiência e rentabilidade do rebanho.

Durante o período seco, as vacas estão fisiologicamente se preparando para o parto e para a próxima lactação, sendo um momento crítico não somente para o desenvolvimento do bezerro, como para a produção de leite na próxima lactação e a saúde reprodutiva deste animal.

Assim, o desempenho reprodutivo do rebanho é diretamente influenciado pelas condições nutricionais e de manejo a que os animais são expostos durante o período seco e início de lactação. Nesta fase, é importante prover ao animal um período de transição saudável entre o retorno à lactação e o final do período seco.

Vacas em lactação e vacas secas encontram-se fisiologicamente em fases distintas; portanto, apresentam demandas nutricionais e de manejo específicas para cada fase. Ao final da lactação, o animal apresenta o tecido secretor de leite ativo, simultaneamente ao desenvolvimento fetal, referente aos 2/3 de gestação. Durante o período seco, várias condições fisiológicas distintas estão ocorrendo no animal. Neste período, a glândula mamária está em transição entre dois estágios funcionais. Estes dois períodos não são similares, pois no início do período seco (4-10 dias) ocorre queda na síntese de constituintes do leite, involução do tecido secretor. Ao final do período seco ocorrem o desenvolvimento e diferenciação do tecido secretor, aumento do transporte seletivo de imunoglobulinas (síntese de colostro), e aumento na síntese de constituintes do leite (lactogênese), nos últimos 21 dias pré-parto. Simultaneamente ocorre o desenvolvimento fetal do último terço de gestação.

O período seco pode ser dividido em três partes distintas:
  • Período de secagem (primeiros 4 a 10 dias)
  • Período seco ou longo (próximos 30 a 40 dias)
  • Período de transição (últimos 21 dias pré-parto)

Se os requerimentos nutricionais dos animais são diferentes em cada um destes períodos, estes animais devem ser preferencialmente agrupados de forma que o manejo das vacas secas seja específico para cada grupo em separado. 

PERÍODO DE SECAGEM: Neste período ocorre a secagem abrupta de vacas com úberes saudáveis. Ocorre a involução do tecido mamário e sua estabilização. Durante este período o programa alimentar deve ser direcionado para a suspensão da atividade dos tecidos secretores na síntese dos componentes do leite. Assim, deixam de ser fornecidos nutrientes para o atendimento da produção de leite, e passam a ser fornecidos apenas para os requerimentos para o último terço da gestação. Com isso, o perfil da dieta muda drasticamente. Os animais deixam de consumir grãos, leguminosas e silagem de milho, sendo substituídos por forragens de menor valor nutricional. A restrição de água por 24 horas também é indicada para inibir a produção de leite. Durante o período seco, as vacas são muito susceptíveis a infecções; por isso, é importante que o veterinário estabeleça um programa de saúde do úbere. O uso de antibióticos, associado à análise microbiológica do leite é eficiente na prevenção e cura da mastite. Se alguns animais apresentarem quartos duros ou inchados, devem retornar a tratamento, imergindo os tetos em solução pós-deeping.

PERÍODO SECO - LONGO: Neste período, o úbere não está mais produzindo leite, e o animal passa a se preparar para a próxima lactação, atendendo ao desenvolvimento fetal. Os requerimentos nutricionais deste estágio são diferentes dos estimados para vacas em alta lactação. Se as dietas fornecidas nesta etapa forem subestimadas os animais não estarão preparados para dietas de alta produção, o que pode levá-los a desordens metabólicas, como quadros de acidose ruminal, deslocamento de abomaso e baixa ingestão de matéria seca (MS) no início da lactação.

PERÍODO DE TRANSIÇÃO: Neste período ocorrem alto desenvolvimento fetal, início da síntese de componentes do leite e alterações hormonais de preparação para a próxima lactação. Vacas em transição, alimentadas com dieta de baixa energia durante o período seco, não estarão preparadas para dietas de alta produção, levando à acidose ruminal, deslocamento do abomaso e baixa ingestão de matéria seca no início da lactação. Vacas secas, alimentadas com dietas de alta energia durante o período de transição, podem apresentar maior incidência de cetose, doença do fígado gordo, deslocamento de abomaso e dificuldades no parto.

Algumas desordens associadas a dietas de baixo valor nutricional para vacas secas:

  • ACIDOSE RUMINAL: Quando a oferta de dietas ricas em carboidratos solúveis aumenta abruptamente no rúmen a síntese de AGV aumenta, assim como o acúmulo de lactato, o que leva a uma queda do pH ruminal. Na forma subclínica, os animais apresentam diarréia, falta de apetite e problemas de casco (laminite). Para prevenir a acidose, deve-se adaptar o rúmen à dieta de alta produção durante o período de transição. No início de lactação deve-se incluir tamponantes na ração e evitar alto consumo de concentrado.
  • DESLOCAMENTO DE ABOMASO: Vacas que não apresentam volume de fibras adequado no rúmen no momento do parto podem sofrer deslocamento do abomaso. O abomaso começa a retorcer, causando um bloqueio parcial do trato digestivo. Ocorre em geral até um mês após o parto, e está associado à febre do leite subclínica. Não só a quantidade de fibras, mas o fornecimento de volumosos que apresentem boa efetividade, fibras de comprimento acima de 3,81 cm, é importante na prevenção desta desordem. Além disso, o fornecimento adequado de Ca no início da lactação também auxilia na prevenção do deslocamento de abomaso.
  • CETOSE: A ingestão de MS declina naturalmente próximo ao momento do parto. Vacas muito gordas reduzem ainda mais o consumo de MS, o que predispõe estes animais à cetose. Este quadro leva à rápida perda de peso corpóreo e reduz drasticamente a produção de leite. Para prevenir a cetose é importante que as vacas continuem consumindo alimento após o parto. Observe a condição corporal da vaca e ajuste a alimentação. Durante o período seco, a vaca não deve perder peso.
  • SÍNDROME DA VACA GORDA: Os animais superalimentados durante o período seco apresentam ingestão de alimentos mais baixa e um balanço energético negativo mais severo no período pós-parto. Estes animais apresentam falta de apetite, perda de peso e queda na produção de leite. Neste período, o requerimento energético da vaca é suprido pelo intenso processo de lipólise e proteólise dos tecidos do animal, aumentando a concentração de ácidos graxos não esterificados no sangue. Quando chegam ao fígado, são esterificados e secretados como VLDL (Very low density lipoproteins). No início da lactação estes animais acumulam VLDL em excesso no fígado, levando à síndrome de fígado gordo. Os quadros mais severos induzem a alterações nas vias bioquímicas, endócrinas e metabólicas responsáveis pela produção, manutenção da saúde e reprodução da vaca pós-parto. Problemas como deficiência no sistema imune, aumento no intervalo do primeiro cio, queda na taxa de concepção e maior intervalo entre partos estão associados à síndrome de vaca gorda, sendo ainda mais susceptíveis a desordens metabólicas e doenças infecciosas. Vacas sob dieta de alta energia durante longos períodos de lactação, ou durante o período seco, apresentam esta síndrome. Durante o período seco a concentração de energia na dieta deverá ser menor que a dieta de lactação. 
  • FEBRE DO LEITE (HIPOCALCEMIA): Queda do nível sérico de cálcio, causando paralisia, até 72 horas pós-parto. Quando os animais apresentam este quadro, o fornecimento de mais cálcio na dieta pode ser ainda mais prejudicial. Para prevenir casos de febre do leite é indicado que os animais recebam durante o período seco uma dieta com níveis adequados de fósforo e baixos níveis de cálcio, não excedendo a proporção Ca:P de 2:1. O fornecimento de uma dieta aniônica para as vacas também tem demonstrado redução na incidência de febre do leite. 


  • MANEJO DE VACAS SECAS

    Como vimos, a condição corporal das vacas ao parto e início da lactação influi grandemente na sua saúde e na produção de leite. Porém, se fornecermos dietas de alta energia durante o período seco também há riscos à sua saúde e produtividade. 

    A boa condição corporal no parto é importante, pois suas reservas serão utilizadas no início da lactação, onde o consumo de matéria seca é baixo. Quanto menor o escore corporal, maior a amplitude e o impacto do balanço energético. Nas fases seguintes de lactação, se a vaca perde peso, seu balanço energético está negativo, ou seja, seu gasto energético para produção de leite não está sendo suprido adequadamente. Quando as vacas são manejadas em condições adequadas, elas chegam ao final da gestação ainda em bom escore corporal, apresentando ganho de peso nos meses finais de lactação.

    Para manter este animal durante o período seco é preciso que a concentração de energia fornecida na dieta seja menor que a energia fornecida durante a lactação, garantindo ganho de peso baixo, para atender ao desenvolvimento fetal. 

    Vacas que chegam ao final da lactação com baixo escore corporal devem ser alimentadas para ganhar no máximo 0,5 ponto no escore corporal, evitando desordens metabólicas durante o início da lactação.

    Para atender ao requerimento de fósforo, e compensar a deficiência das pastagens, este mineral pode ser complementado por suplementos minerais misturados ao concentrado ou à silagem, ou sob livre consumo. Se a dieta fornecer pouco ou nenhum grão, o suplemento utilizado deverá conter alto nível de fósforo.

    O cloreto de sódio (sal comum) deve ser limitado para vacas secas durante o período que antecede o parto, assim como o potássio, por estarem associados ao edema de úbere. Até o parto não deve ser fornecido qualquer produto tamponante na dieta.

    Devido à sua importância na manutenção da saúde e eficiência reprodutiva, as vacas secas devem ser suplementadas durante o período seco com microminerais. Entre estes destacam-se o iodo e o selênio. O Iodo é importante por causar bócio em bezerros, e o selênio devido à sua deficiência estar associada à retenção de placenta e doença do músculo branco em bezerros. 

    Deve-se prever ainda, no período seco, a vermifugação e vacinação das vacas. 

    MANEJO DE VACAS DE TRANSIÇÃO

    Aos 21 dias antes da data estimada para o parto, a vaca deve ser separada para o grupo de animais na mesma fase pré-parto.

    Quanto à alimentação, a dieta fornecida deve conter os mesmos ingredientes usados como concentrados e volumosos aos animais durante a lactação, porém, considerando a demanda nutricional do período de transição. Este procedimento permite a adaptação dos microorganismos ruminais à dieta de lactação. As forragens fornecidas devem ser picadas grosseiramente, garantindo o consumo de fibras de no mínimo 3,81 cm. Se a forragem ofertada for rica em potássio, considerar na formulação o balanço aniônico da dieta. 

    Para pequenos rebanhos pode-se colocar as vacas em transição junto às vacas de baixa produção, cuidando-se das restrições alimentares da categoria.

    Quando a vaca está a poucos dias do parto deve ser levada para um piquete maternidade, onde poderá ser observada atentamente. Nesse momento, a higiene pode reduzir casos de mastite por coliformes, garante a saúde do bezerro e minimiza as ocorrências de infecções uterinas. 

    MANEJO – INÍCIO DA LACTAÇÃO

    As vacas devem consumir alimento após o parto, evitando perdas de peso acima de ponto no escore de condição corporal entre o parto e o pico de lactação (60 dias de lactação).

    Os animais que já estavam recebendo uma dieta adequada de transição, podem passar a consumir diretamente a dieta de lactação, já que estão adaptados a uma dieta similar em ingredientes. Neste período, podem ser usados tamponantes na dieta, e o fornecimento de concentrado deve ser controlado. Se possível, estes animais podem formar um novo grupo, consumindo dieta intermediária com os mesmos ingredientes que os animais em alta produção, porém, com níveis menores de proteína, fibra e gordura. Podem ser alimentadas até três semanas, dependendo-se da dieta, e então alocadas ao grupo de alta produção.

    Como vimos, a dieta e manejo adequados às diferentes fases do ciclo de produção são ferramentas importantes para maior produtividade e rentabilidade do rebanho leiteiro.



    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    HARRIS, B.Jr. Feeding for maximum production and reprodutive performance. University of Florida. IFAS – Extension. June, 2003.

    CAMERON, R.E.B.; DYK. P.B.; HERDT, T.H.; KANEENE, J.B.; MILLER, R.; BUCHOLLTZ, H.F.; LIESMAN, J.S.; VANDEHAAR, M.J.; EMERLY, R.S. Dry cow diet, management, and energy balance as risk factors for displaced abomasums in high producing dairy herds. 1998. J. Dairy Sci. 81: 132-139.

    HARRIS, B. Jr. The importance of fiber in feeding cattle. University of Florida. IFAS-Extension. September, 1992.

    GAMROTH M.; CARROLL, D. Dry cow feeding and management. Oregon State University Extension Service. August, 1995.

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