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Artigos Técnicos
Afecções podais – Vencendo mais esse desafio!

Data da Publicação: 02/12/2010

Profº Dr. Deolindo Stradiotti Júnior
Doutorado em Produção de Ruminantes pela UFV – MG
Profº Adjunto pela UFES – Universidade Federal do Espírito Santo –ES
Membro do Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias – UFES-ES
jrstradiotti@cca.ufes.br


É do conhecimento de todos os grandes problemas de casco que ocorrem em animais estabulados, a exemplo dos submetidos ao sistema "free stall". Os prejuízos são de escala vultosa, podendo chegar a inviabilizar a produção. Também se sabe que o enfoque dado às "doenças dos cascos" de rebanhos leiteiros estabulados sempre se sobressaiu, inclusive no universo das pesquisas, uma vez que as ocorrências nesse sistema sempre foram muito superiores às de outros sistemas de criação.

Contudo, mudanças conceituais de produção de leite a pasto têm ocorrido nas duas últimas décadas, seja por questões relacionadas à descoberta ou apuração de técnicas de manejo nesse sistema, principalmente para condições tropicais, seja pela maior pressão que órgãos ambientais imprimem no que se refere à produção em menores áreas, vista a obrigatoriedade de recuperação e/ou manutenção das áreas de preservação permanente e reservas legais. O fato é que se tem evidenciado um crescimento expressivo de afecções podais em animais a pasto.

Parte da justificativa para esse crescimento das afecções, que é pertinente às técnicas de manejo alimentar, se concentra na exigência de dietas cada vez mais complexas em termos quanti-qualitativos, vista essa intensificação nos sistemas de produção leiteira a pasto, condição que favorece o surgimento de transtornos metabólicos nos animais.

Somente a maior concentração de animais por área, concomitante com o maior uso de ração concentrada/animal/dia, inegavelmente já é suficiente para compor um ambiente de alto favorecimento para a prevalência das enfermidades dos cascos, também denominadas Doenças Digitais Bovinas (DDB). Essas doenças afetam a extremidade dos membros do bovino, incluindo pele, tecido subcutâneo e córneo, ossos, articulações e ligamentos, sendo em torno de 90% das claudicações (dificuldades para se locomover) decorrentes dessas. A dermatite interdigital e a pododermatite asséptica difusa (laminite) são exemplos de DDB.

Dados esses fatos, pretende-se aqui dissertar sobre afecções podais a pasto, com ênfase na laminite, derivada de distúrbios de origem metabólica nutricional, uma vez que essa se sobrepõe em ocorrência (cerca de 60% do total das lesões de casco) e nos custos, quando comparada a outras categorias das doenças de casco. Outro fato de alta relevância para se dar destaque à laminite é que mais de 90% das lesões ocorrem nos membros posteriores, justamente os mais exigidos em termos de sustentação do úbere (peso do leite produzido). Não bastasse, é justamente no período pós-parto que se concentram as ocorrências dessa injúria.

Etiologicamente sabe-se que o principal contribuinte para a ocorrência dessa enfermidade é a ingestão de quantidades excessivas de carboidratos prontamente fermentáveis, com simultânea diminuição da produção salivar e do tempo de ruminação, levando a um aumento marcante de ácido láctico no trato digestivo, com redução do pH. Com o aumento da produção de ácido lático no rúmen, há destruição de grande número de bactérias e liberação de suas toxinas. Concomitante a isso, ocorrerá lesões na mucosa ruminal, causando endotoxemia e acidose sistêmica.

Os processos de endotoxemia e acidose sistêmica resultarão na vasoconstrição periférica, com redução do fluxo sanguíneo às lâminas do casco, resultando em consequente diminuição do aporte de nutrientes para o tecido epidermal, de onde decorre um dano mecânico local. As fortes dores se justificam pela compressão do tecido mole entre o osso e a sola do casco.

Quando se comparam os dois sistemas de criação, há que se considerar o fato de que a observação precoce das afecções podais, que seria ideal, torna-se mais difícil com os animais a pasto. Nesse caso, em grande parcela das ocorrências o diagnóstico se faz tardio, condição que implica em maiores dificuldades para se chegar à cura, tendo como consequência perdas de ordem econômica elevadas, derivadas não somente dos custos de tratamento e da queda brusca na produção de leite, como a princípio poder-se-ia imaginar, mas também de outras procedências que serão abordadas.

Se considerados, conjuntamente, os fatos de que a bovinocultura leiteira no Brasil, em sua maior parcela, faz o uso de pastagens para o desenvolvimento da atividade, e que os mercados consumidores têm se tornado cada dia mais exigentes quanto às questões pertinentes à produção pautada no bem-estar-animal, cabe ao produtor e ao técnico buscarem capacitação para o manejo otimizado do rebanho, por conseguinte, das pastagens.

As doenças podais influenciam o bem-estar dos bovinos, promovendo mudanças comportamentais em pastejo. Essas mudanças, uma vez que se realizam em decorrência de permanente dor e desconforto, acabam resultando em perda de peso e de escore de condição corporal, levando o animal a uma forte imunossupressão, com consequente elevação de problemas de saúde, como mastite, e de problemas de ordem reprodutiva.

Entende-se que o manejador deva buscar potencializar o pastejo dos animais. Assim, é importante que se garanta uma adequada oferta de pasto, tendo nessa uma boa relação folha/caule e com boa densidade volumétrica, principalmente na camada superior do relvado, condição em que a vaca conseguirá maior volume de forragem por bocado e com maior volume de folhas em relação ao caule, o que facilitará a ruminação. Imprescindível que os estratos do relvado (camadas verticais da forrageira) contenham o mínimo possível de macega (matéria morta). Essa condição garante ao animal menor tempo de pastejo, com maior aporte de nutrientes.

Dessa forma, além de sobrar mais tempo para ruminação e para o ócio, cria uma condição favorável ao animal, visto precisar caminhar menos para encontrar alimentação desejada e, com isso, gastar menos energia. Essa condição se reverte em maior lucratividade ao produtor, sendo esta, além de advinda de menores gastos de energia, também resultante de menores problemas de casco por todos os problemas decorrentes do maior tempo que esse animal passaria em pé e gastando energia ao caminhar mais.

Não se atendendo a esses quesitos básicos de manejo, o que se vê são vacas que, por apresentarem problemas podais, dado o desconforto que sentem por ficarem em pé e, muitas vezes tendo que caminhar em terrenos íngremes e de cascalheiras (intensifica o incômodo), procuram dar bocados maiores e mais rápidos, acabando, assim, por ingerirem junto da matéria seca verde (capim verde), grande quantidade de macega (capim seco).

Tornam-se impossibilitadas de "selecionar a dieta", ou seja, impedidas de realizar um "comportamento" adquirido ao longo de sua evolução e que lhe garantiriam o consumo de forragem de melhor qualidade por bocado. Têm-se como resultado o agravamento do problema de casco, uma vez que, conforme referenciado, seu quadro imune fica debilitado pela menor ingestão de energia e estresse.

Não se pode deixar de observar que as vacas também diminuem a ingestão de água. A frequência de ruminação se altera, ou seja, diminui em decorrência da menor frequência de ingestão de água. Fácil deduzir que sob condição de dor para caminhar em busca de água, opta-se por menor consumo que resulta em menor necessidade de ingerir água. É dessa forma que as perdas se multiplicam e o que antes seria de fácil domínio e controle, passa a fugir do domínio do produtor, tornando-se uma "bola-de-neve".

Outro exemplo de alteração comportamental em pastejo é o tempo em que o animal claudicante deveria passar ruminando em pé. Chega a ser três vezes inferior quando comparado a um animal saudável. Essas horas a mais em posição de decúbito resultam em implicações muitas vezes não consideradas. Um dos agravantes que se pode esperar desse comportamento é a fácil ocorrência da mastite ambiental, pois o contato dos tetos com o ambiente com sujidades é muito superior. Esse comportamento anormal também resulta em maior dificuldade para se detectar sinais de cio.

Em termos de reprodução, as consequências de um mal estado dos cascos são alarmantes. Há perdas em quase todos os seus índices. Para se ter uma ideia, o período de serviço, que compreende o intervalo de tempo entre a parição e a próxima fertilização, chega a ser 60 a 70 dias superior. O número de serviços por concepção é outro índice que se tem comprometido, dada a claudicação. Ocorre, ainda, diminuição da função ovariana, com redução na taxa de ovulação.

Ocorrendo um aumento no balanço energético negativo no período pós-parto, é de se esperar que a síntese de hormônios esteróides, como a progesterona, seja afetada, com reflexos negativos sobre a gestação. Enfim, o prejuízo advindo dessas ocorrências pode, pelo desconhecimento, estar sendo subestimado.

Outra ocorrência que o produtor e os técnicos devem estar atentos é para o fato de que, pela alta incidência de afecções podais no pós-parto, o pico de lactação pode vir a ser comprometido. Então, precisamos entender que, se o pico que deveria ser, em situação normal, por exemplo, de 20 kg de leite/dia, ao se apresentar com dois ou três litros a menos, decorrente da injúria, essa perda persistirá durante o restante da lactação.

Uma técnica desenvolvida para evitar que as vacas não adquiram a mastite ambiental pós-ordenha é a de que não as tratemos durante a ordenha, situação que as levam a ficar em pé enquanto se alimentam (alimentação fornecida no cocho), por um período desejável, algo em torno de 40 a 50 minutos. É que o esfíncter e o canal do teto permanecem abertos por aproximadamente esse período nas vacas ordenhadas, facilitando a entrada das bactérias causadoras dessa doença.

Percebe-se facilmente que para vacas com afecções podais essa técnica poderá falhar, posto que após a ordenha elas rapidamente buscarão conforto, entrando em decúbito, condição que as deixará vulneráveis, dado o contato dos tetos com sujidades (fezes, urina, às vezes barro e outros). Esses animais devem ser deslocados para uma área separada das outras vacas, onde se possam oferecer cuidados direcionados.

De todo o visto, importante trocar o conceito de que o casco é uma estrutura muito forte e resistente para o de que é somente mais um organismo vivo dependente de toda a ordem de cuidados preventivos. Sendo assim, a disponibilização de pedilúvios em locais estratégicos da propriedade, principalmente na saída da sala de ordenha, é recomendada. Imprescindível que o tamanho dos pedilúvios permita que a vaca toque cada membro ao menos duas vezes por passagem pelo mesmo.

Uma observação importante e de retorno satisfatório refere-se à construção de um lava-pés bem amplo, para que o animal possa retirar o excesso de sujidade dos pés (principalmente matéria orgânica) antes de chegar até à solução do pedilúvio, para que essa tenha ação direta nos pés.

Quanto aos cascos acometidos pela doença, estes devem receber o tratamento de forma ininterrupta, seguindo as recomendações da bula do(s) medicamento(s) e do técnico credenciado. Todavia, tão importante quanto passar o produto é averiguar, com muito cuidado, se os seus funcionários estão respeitando o tempo que se deve deixar o local acometido em contato com a solução. Por ser geralmente em torno de 15 minutos por membro, esse tempo acaba não sendo respeitado.

Treinar o(s) funcionário(s) para saber(em) colocar o denominado tamanco no animal é muito importante, quando for o caso, por se tratar de medida de apoio ao tratamento, não somente oferecendo bem-estar às vacas acometidas, mas também permitindo que as mesmas não venham a ter fortes quedas nos índices da produção.



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