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Artigos Técnicos
Como controlar mastite no rebanho leiteiro

Data da Publicação: 02/12/2010

Poliana de Castro Melo
Doutoranda em Medicina Veterinária Preventiva - UNESP Jaboticabal


A mastite constitui-se na enfermidade mais comum em vacas leiteiras, o que acarreta prejuízos significativos ao produtor. Nas suas principais formas de apresentação, clínica e subclínica, a doença é causada por uma grande diversidade de microrganismos. Entre os diversos patógenos responsáveis por esta enfermidade, os Staphylococcus aureus são reconhecidos como os mais isolados em vários países do mundo.

Controlar a mastite no rebanho é ainda um problema para a maioria dos produtores rurais, tendo em vista a resistência que os microrganismos apresentam aos antimicrobianos, ocasionada pelo uso indiscriminado dos mesmos e pela dificuldade de implantação de um programa de manejo e higienização. Devido a esses fatores serão discutidos alguns pontos importantes para o controle desta doença.

O que é mastite e quais os tipos

Mastite é a inflamação da glândula mamária, tendo como causa principal microrganismos tais como bactérias e fungos, entre os quais as bactérias são os principais agentes da doença. De acordo com o "Nacional Mastitis Council" (NMC, 2000), em rebanhos em que não se adotam medidas de controle, em média 50% das vacas se infectam em dois quartos cada. No Brasil a prevalência média da doença é de 20 a 38%.

A mastite divide-se em dois grandes grupos, segundo a sua forma de manifestação: Mastite clínica - Verifica-se a presença de sinais evidentes de inflamação: inchaço, vermelhidão, dor, presença de grumos e/ou pus no leite, aumento de temperatura na glândula mamária e endurecimento.

A outra forma de manifestação e mais importante é a Mastite subclínica, que em decorrência da ausência de sinais clínicos, pode passar despercebida sendo o diagnóstico feito devido a alterações no leite, tais como: aumento do conteúdo de células somáticas (CCS), aumentos nos teores de sódio, cloretos, proteínas séricas e diminuição da caseína, gordura e lactose. A prevalência da mastite subclínica é muito maior do que a da mastite clínica; a mastite subclínica representa de 90-95% dos casos da doença.

Como diagnosticar a mastite subclínica

Quando um agente patogênico, como as bactérias, por exemplo, invade a glândula mamária, o organismo do animal manda células de defesa (leucócitos) para tentar reverter o processo infeccioso. Essas células de defesa, somadas às células do epitélio secretor de leite dos alvéolos, são chamadas de células somáticas do leite. Portanto, quando ocorre a presença de um microrganismo na glândula mamária, geralmente a contagem de células somáticas apresenta-se elevada, e esse aumento de CCS é a principal causa da mastite subclínica. Existem vários testes que medem a quantidade de células somáticas do leite, como por exemplo, o "Califórnia Mastitis Test" (CMT), "Whiteside" e a contagem eletrônica de células somáticas. De todos estes testes o mais barato, prático, que apresenta ótimos resultados e pode ser utilizado na rotina de ordenha é o CMT. O CMT utiliza um corante indicador de pH e tem também como constituinte um detergente neutro, responsável pela ruptura da membrana das células somáticas, liberando material nuclear que irá formar uma reação espessa e viscosa, podendo também formar um coágulo, dependendo da intensidade de reação. Quanto mais células somáticas estiverem presentes no leite mais intensa será a reação, que pode ser classificada em diferentes graus, desde uma cruz até três cruzes.

Essa classificação está diretamente correlacionada com um número de células somáticas, sendo que o grau três cruzes indica a presença de três a oito milhões de células somáticas no leite.

O CMT é um teste de triagem que indica a presença de células, mas deve ser confirmado pelo exame microbiológico, ou cultura do leite, pois somente o isolamento do microrganismo pode confirmar a doença. Por isso, é muito importante fazer o acompanhamento dos animais com o CMT e, sempre que possível, nos casos positivos fazer a cultura microbiológica do leite dos quartos infectados.

Como proceder a colheita do leite e enviar material para análise laboratorial

Inicialmente, deve ser feita a limpeza do teto com água corrente. A qualidade microbiológica da água deve ser considerada, uma vez que a água pode funcionar como fonte de veiculação de microrganismos. Fazer a imersão do teto em solução desinfetante à base de cloro, iodo ou clorexidine. Esperar em média um minuto para ação do desinfetante e logo após proceder a secagem dos mesmos com papel toalha, sendo uma folha de papel toalha para cada teto, e depois do uso devem ser descartadas. Desprezar de dois a três jatos de leite e passar um algodão embebido em álcool 70% no orifício do teto, para completa desinfecção. Pegar um tubo estéril de plástico ou vidro com tampa e colocar de 2 a 3 ml de leite, fechar o tubo e identificar a amostra com o teto infectado e o nome e/ou número da vaca. Acondicionar as amostras em caixa de isopor contendo gelo e enviar o mais rápido possível para o laboratório (até 24 horas).

Principais microrganismos causadores de mastite, encontrados no leite

Os principais patógenos encontrados no leite, causadores de mastite, são: Staphylococcus sp, Streptococcus sp, Escherichia coli, Corynebacterium sp e Pseudomonas sp. Entre esses agentes os estafilococos ocupam lugar de destaque na maioria das propriedades leiteiras, e o Staphylococcus aureus é o mais prevalente.

Os estafilococos são cocos gram-positivos, imóveis, anaeróbios facultativos, apresentando metabolismo fermentativo com produção de ácido e não de gás. S. aureus destacam-se como microrganismos causadores de mastites contagiosas de maior importância, maior ocorrência nos rebanhos mundiais, e de tratamento mais difícil devido à elevada resistência aos antimicrobianos. As infecções intramamárias causadas por S. aureus apresentam implicações importantes em saúde pública, tendo em vista que as toxinas podem ser excretadas no leite e permanecer estáveis nos produtos oferecidos ao consumo. O risco à saúde humana está associado ao consumo de leite dos rebanhos infectados, uma vez que a maioria dos casos de mastite diagnosticados é de mastite subclínica.

As adesões dos S. aureus ao epitélio da glândula mamária são consideradas o primeiro ponto crítico na patogenia da mastite, sendo que a maioria das estirpes dos S. aureus que causam mastite são circundadas por uma camada espessa (biofilme), que ajuda na aderência e colonização dos microrganismos no epitélio da glândula mamária.

Os biofilmes são constituídos de vários microrganismos aderidos a uma superfície e aderidos entre si, formando uma comunidade bacteriana, onde trocam nutrientes e conseguem sobreviver a todo tipo de ambiente inclusive às ações de desinfetantes e agentes químicos de desinfecção e também a antibióticos quando estão presentes em infecções como, por exemplo, na mastite.

Como controlar a mastite no rebanho e prevenir a formação de biofilmes e a presença de microrganismos produtores de biofilmes na mastite

Um dos aspectos mais importantes no controle da mastite é o correto diagnóstico da situação e o monitoramento constante dos dados. De posse desses dados é possível fazer uma análise detalhada e priorizar as áreas de atuação. Por exemplo, se uma fazenda apresenta altos índices de mastite clínica pós parto, baixo índice de CCS e presença de coliformes na cultura do leite, as áreas prioritárias a serem atacadas são: instalações, limpeza dos equipamentos de ordenha e o manejo de pré e pós parto.

Programa Básico de Controle da Mastite: 1. Tratamento correto de todas as vacas no período seco. 2. Tratamento imediato de todos os casos clínicos, fazer antibiograma, não utilizar antibiótico de qualquer maneira. 3. Funcionamento adequado do sistema de ordenha. 4. Correto manejo de ordenha com ênfase na desinfecção dos tetos pós-ordenha. 5. Descarte de vacas com mastite crônica. 6. Boa higiene e conforto na área de permanência dos animais.
Outro ponto importante é o monitoramento do leite no tanque de expansão. Para isso, é necessário fazer a cultura microbiológica de uma amostra de leite do tanque de expansão, e essa é uma forma simples, prática e de baixo custo que pode proporcionar informações muito úteis sobre a sanidade da glândula mamária no rebanho. Principalmente em rebanhos onde há prevalência dos seguintes agentes causadores de mastite: Staphylococcus aureus; Streptococcus agalactiae e Mycoplasma sp. O isolamento de um destes agentes no leite do tanque é indicativo da presença destes microrganismos no rebanho. Por isso, recomenda-se o monitoramento periódico (mensal) de amostras do tanque. A colheita de amostras deve ser realizada em tubos estéreis de forma asséptica e enviada ao laboratório, sem conservante, o mais rápido possível.

A higiene dos equipamentos de ordenha, das mãos dos funcionários e a limpeza correta dos tetos antes do início da ordenha previnem a presença de microrganismos, evitando, assim, a aderência dos mesmos e a formação de biofilmes. Uma vez que, estes biofilmes estejam presentes no ambiente de ordenha, a sua remoção torna-se um problema muito grande, e os gastos com a troca de equipamentos, onde a aderência destes microrganismos está presente são necessários, causando um prejuízo muito grande ao produtor. A presença de bactérias produtoras de biofilmes em infecções da glândula mamária também representa um problema grande devido à resistência que estes microrganismos apresentam frente aos antibióticos - bactérias em biofilmes são até mil vezes mais resistentes aos antibióticos. Portanto, é muito importante o uso consciente dos antibióticos; estes devem ser utilizados após resultado de antibiograma e com indicação do médico(a) veterinário(a) de acordo com a evolução e o quadro clínico apresentado pelo animal.

Desafios e perspectivas para o sucesso no controle da mastite

Diante de tantos desafios para o produtor de leite, o mais importante deles é evitar a colonização de bactérias no ambiente de ordenha, evitando que as mesmas sejam veiculadas ao orifício do teto, onde podem se multiplicar e ocasionar quadros de mastite além da persistência por longos períodos na glândula mamária, levando muitas vezes à decisão de descarte do animal. Para evitar tantas perdas é muito importante seguir corretamente as boas práticas para o ambiente de ordenha, como as citadas acima.

Outro grande desafio é eliminar os biofilmes do ambiente de ordenha, ou seja, as adesões dos microrganismos e sua camada protetora de polissacarídeos, tanto no ambiente quanto a sua presença em quadros de mastite. Vários estudos estão sendo dirigidos nos sentido de eliminá-los, mas nenhum destes estudos ainda tem aplicabilidade prática. Por isso, se faz necessário adotar todas as medidas de prevenção para evitar a formação destes biofilmes microbianos.

As perspectivas em estudo estão relacionadas a: descoberta de substâncias capazes de destruir o biofilme, seja em superfície ou em infecções através do novos quimioterápicos; estudos genéticos que visam identificar as características destes microrganismos para controle eficiente dos mesmos; utilização de técnicas com ondas de ultra-som como auxiliar no tratamento da mastite; uso de vacinas que sejam capazes de induzir imunidade por longo tempo e estejam ligadas à proteção contra bactérias produtoras de biofilmes, principalmente os estafilococos; utilização da nanotecnologia no tratamento. Esses são apenas alguns dos estudos que estão sendo conduzidos, mas não se sabe quando os resultados estarão disponíveis para utilização.

Sendo assim, a prevenção é o melhor caminho a ser adotado para evitar e controlar casos de mastite no rebanho leiteiro.



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